Já por aqui escrevemos sobre a paixão dos lisboetas por café, mas não podemos deixar de lado uma outra paixão que sabe mesmo bem acompanhada por esta bebida: o pastel de nata.  Se já estão a salivar olhando para a fotografia em baixo, aguentem um pouco antes de irem a correr para o próximo café à procura de um pastelinho e continuem a ler este artigo docinho, acabado de sair do forno.

(Imagem: Reprodução Lisboa acima, Lisboa abaixo)

Imagem: Reprodução Lisboa acima, Lisboa abaixo

Reza a história que o pastel de nata é filho do pastel de Belém e que os responsáveis pela sua criação foram os monges do Mosteiro de Jerónimos. Há quem conteste essa teoria e que diga que o pastel de nata já tinha sido criado no século XVI por monjas do mosteiro de Odivelas, pois as mulheres religiosas eram autorizadas em mexer com o açúcar e não os homens. Ao menos para as mulheres ficou reservada a vantagem de fazer doces…

Teorias à parte sabe-se que, contudo, os monges do Mosteiro dos Jerónimos que tinham no século XIX problemas financeiros, começaram a vender os pastéis aos visitantes. Nessa altura, Belém ficava longe da cidade e era um local que atraía pessoas curiosas que queriam visitar os famosos monumentos como o próprio Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. Provavelmente naquela altura não havia tantas filas de turistas como agora, por isso aproveitavam o tempo com mais calma para passear e, já agora, comer os pastéis.

Ao mesmo tempo, bem perto do mosteiro, havia uma refinaria de açúcar, no atual local onde se vendem os pastéis de Belém, cujo dono era um empresário que ganhou fortuna no Brasil. Chamava-se Domingos Rafael Alves.

Em 1820 tivemos a revolução liberal e, consequentemente, em 1834 as ordens religiosas foram expulsas dos mosteiros e conventos. Um dos monges, provavelmente desesperado com a sua má sorte (ou feliz, dependendo do ponto de vista), vendeu a receita dos pastéis ao empresário Domingos Rafael Alves e este esfregou as mãos de contente. O resto da história já podemos adivinhar. A venda dos pastéis de Belém tornou-se lucrativa e o negócio passou de geração a geração. Os pastéis são de tal forma cobiçados que até existe uma Oficina do Segredo. Quem pertence a essa oficina tem de prestar um juramento e assinar um termo de responsabilidade, não revelando a sua receita que ainda se mantém original desde 1837. São apenas 6 que conhecem a receita e que não se deixam subornar.

Mas qual a diferença entre um pastel de Belém e um pastel de nata?

Quase nenhuma. Basicamente os dois são pastéis de nata, mas os pastéis de Belém são os detentores da marca, como únicos e originais, só vendidos no mesmo local. Os outros pastéis de nata são vendidos em qualquer café que encontramos na cidade, mas não deixam ficar atrás em qualidade. Hoje em dia existem concursos que premeiam o melhor pastel de nata do ano promovido pelo festival gastronómico Peixe em Lisboa. Os cafés que têm fabrico próprio de pastéis de nata defendem orgulhosamente que os seus são os melhores ou que primam pela diferença. Se assim é, não nos importamos de fazer uma prova para testar essa diferença em qualquer um dos cafés de Lisboa. Por isso, se tiverem tempo, aconselhamos uma prova de pastéis num destes locais:

Manteigaria

(Imagem: Reprodução Casal Mistério)

Imagem: Reprodução Casal Mistério

Situada no Chiado, bem perto do Largo de Camões na Rua do Loreto, a Manteigaria ocupa o espaço da antiga Manteigaria União, mantendo o seu charme de loja tradicional, com uma fachada clássica. O espaço não é muito grande: sem mesas ou cadeiras, com um balcão corrido. Em contrapartida, o visitante guloso pode ver como os pastéis são confecionados, sem segredos. O tocar da sineta anuncia mais uma fornada de pastéis acabadinhos de sair do forno. Indescritível é o seu sabor.

Confeitaria Nacional

(Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução Cidade Iol

A Confeitaria Nacional também é um daqueles cafés já de longa tradição que nos faz entrar na máquina do tempo. Negócio de família já de há gerações o ex-líbris da Confeitaria é o bolo rei, bolo consumido no Natal por todo o país, criação do filho do fundador da casa. Os pastéis de nata da Confeitaria também são igualmente bons e recomendam-se.

Pastelaria Aloma

(Imagem: Reprodução Ionline)

Imagem: Reprodução Ionline

Situada em Campo de Ourique a Pastelaria Aloma também já tem história desde 1943. O nome original e sonante deve-se a um filme, “Aloma of the South Seas”, cuja personagem principal impressionou de tal forma os proprietários da pastelaria que acabaram por baptizar a sua pastelaria com o seu nome. O prémio do melhor pastel de nata em 2012, 2013 e 2015, mais referências no New York Times e CNN são motivos suficientes para considerarmos fazer por lá uma prova…

Fim de Século

(Imagem: Reprodução Zoomato)

(Imagem: Reprodução Zoomato)

Fica no bairro de Benfica, longe da confusão do centro histórico e foi a pastelaria vencedora do melhor pastel de nata do ano de 2016 no concurso promovido pelo festival gastronómico Peixe em Lisboa. Aliás são dois Fins de Século no bairro. Um perto do mercado e o outro na Estrada de Benfica. Não primam pela decoração ou antiguidade das referidas pastelarias, mas há quem diga que o prémio do melhor pastel de nata foi bem merecido.

 

E o vencedor deste ano é… (rufar dos tambores)

O Pãozinho das Marias

(Imagem: Reprodução lifecooler)

Imagem: Reprodução lifecooler

Desta vez o prémio do melhor Pastel de Nata foi fora de portas e entregue a O Pãozinho das Marias que tem dois espaços  na Ericeira, uma vila junto ao mar a poucos quilómetros de Lisboa. São boas razões de fazer uma visita a esta vila pituresca e terminar a tarde com um pastel de nata merecedor de um prémio.

Isabel Bernardo
Isabel Bernardo
Nascida e criada em Lisboa, tem a literatura, línguas e turismo como formação e um carinho especial pelo património, história, escrita e música. Entra nesta aventura, pelo gosto que tem em construir historias e passeios e pelo contacto com as pessoas. Fora da Rota é isso mesmo! Uma viagem enriquecedora entre amigos, mostrando os encantos de Portugal!

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